RE-PENSANDO A PRÁTICA CLÍNICA SOBRE UMA PERSPECTIVA DE CUIDADO

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Eliane Figueiredo

1.0 – INTRODUÇÃO:

A sociedade contemporânea, chamada sociedade de conhecimento, está cada vez mais causando solidão entre as pessoas, o consumo de massa, juntamente com uma sociedade de espetáculo, desfavorece o afastamento da pessoa, do processo do eu, na qual, as pessoas buscam um consumo exagerado e uma performance exagerada, buscando um autocentramento . Em cima destes fatores, podemos relevar a questão da anti-humanidade, cuja tal é capaz de afetar a vida humana e as pessoas ficam cada vez mais sem cuidado e sem compaixão.

Neste sentido, compreendo que o cuidado, baseia-se numa condição ontológica do ser, assim sendo, em sua constituição, sempre subjacente a tudo que o ser humano projeta. Esse cuidado, é pois o suporte real da criatividade, da liberdade e da inteligência, é no cuidado que se encontra o ethos, este, utilizado como princípio, valores e atitudes, como também a utilização da morada. Contudo, é possível tornar perceptível, o afastamento do cuidado o qual diretamente, intensifica o descaso.

Ainda, é perceptível um descuidado quanto ao destino dos pobres, marginalizados e favelados, pela fome crônica, pela imensa população excluída, pelo planeta, onde solos são envenenados, áreas contaminas, águas poluídas, a violência pairando pela população, existindo também, um descaso profundo com a habitação, e as milhares de pessoas com a sub- moradia ou a falta desta.

Sendo o cuidado uma condição ontológica, o que nos leva ao descuidado? E na nossa prática clínica, com estamos cuidando dos nossos clientes? São questões inquietantes nas quais estou buscando respostas.

2.0 – SABER CUIDAR, ORIGEM DA PALAVRA

Alguns filósofos, derivam cuidado de cojitare – cojitatus (coyedar, coidar, cuidar) e este sentido é o mesmo de curar: cogitar pensar, revelar uma atitude de desvelo e atenção. O cuidado somente surge quando a existência de alguém tem importância para mim. Cuidado para Leonardo Boff significa desvelo, solicitude, zelo, atenção, bom trato. E uma segunda significação, preocupação e inquietação. O cuidado sempre acompanha a pessoa humana, porque ela nunca deixa de se mostrar ou de ama r alguém, e nem de se preocupar por alguém.

Vamos utilizar o cuidado como ethos, no sentido originário grego, significa a troca do animal ou casa humana, este ethos ganha outro significado, valores, atitudes e comportamentos práticos, vindos através das várias tradições culturais e espirituais.

Vamos nos centrar no ethos como morada, na qual o homem busca para poder se sentir amparado. Trazendo agora uma visão do descuidado da nossa civilização, diante do caos que estamos vivenciando, emerge-se assim uma nova ética, vista como cuidado, então cuidar vem do latim cuidado, derivado de cura, em sua forma mais antiga, cura em latim se escreveria cuera era usada em um contexto de amor e amizade. Expressava uma atitude de preocupação, inquietação pela pessoa amada ou por um objeto de estimação.

Cotidianamente, o eu cuida da vida, ou seja, dá conta da vida, como se deve dar, no entanto, aparece as questões de impróprio e inutenticidade.

A impropriedade da existência não é depreciativa do caráter do ser do homem, a condição da impropriedade é tão ontológica quanto o compreender e o coexistir, ela é um dado revelador da ontologia humana, ela nos mostra que a coexistência ou pluralidade, é uma condição na qual a vida é efetivamente dada ao homem através da facticidade, sua propriedade, sua projeção.

Se mencionarmos uma existência própria ou autêntica, podemos refletir sobre uma abertura construtiva das possibilidades das existências própria ou autêntica, aquela onde o eu pode recuperar-se de sua impossibilidade, de se perder no impessoal, e existir através da sua dissolução nos outros, ou em si. Isto porque o eu está sempre em relação com esta pluralidade.

Singularidade e pluralidade são dimensões correlativas, quando o eu apresenta-se simultaneamente e exatamente igual, carregando em si muitas vezes a bagagem presente e existente dos outros. Neste sentido temos o descuidado do eu para com a vida, tornando-a um acontecimento exclusivamente seu. Sua vida é um acontecimento que implica os outros, os outros também acontecem juntos, e através do eu.

No nosso cotidiano, a existência é empreendida através de cada homem, onde as ações implicadas entram em cena. Então, se o homem é poder, ser o seu modo de ser, é o da possibilidade e não o da realidade. O termo da existência, no caso do homem, deve entender-se no sentido etimológico de ex-sistere estar fora, ultrapassar a realidade, simplesmente presente na dimensão da realidade, simplesmente presente na dimensão da possibilidade.

O termo alemão para designar existência é Dasein, literalmente, ser ai existência, Dasein e ser no mundo são sinônimos, os três conceitos indicam o fato de o homem estar situado, na forma de projeto. O estar ai não é simplesmente o ser ai, é também o ser para a morte.

O Dasein não está sempre no modo de possibilidade, pois ele morre, e chega a um momento, que esta forma de estar aberto deixa de ser. Entendendo diante disto à morte como fator biológico, a morte como forma de possibilidade, porque acontece ao outro e ainda não nos aconteceu. O primeiro aspecto da morte é o seu caráter insuperável, e a possibilidade da impossibilidade. A morte revela-se como possibilidade mais autêntica, isto quando a morte é assumida pelo Dasein, não significando um pensar na morte no sentido de ter presente, mas a equivalência da aceitação de todas as possibilidades. A morte constitui uma totalidade autêntica do Dasein assumir-se como propriedade de possibilidade, ser sempre aberto, porque é um ser para a morte, ao antecipar a morte, o estar-ai possui uma história, um desenvolvimento, para além da fragmentação e dispersão.

O estar disperso, constitui uma característica de inutenticidade, representando a situação negativa e de dispersão em que se encontra sempre o Dasein onde a tomada de consciência torna-se importante, no entanto, quando o homem assume a possibilidade da própria morte, suas decisões no se petrificam e nenhuma realização particular possui futuro.

Por conta desta existência inautêntica, sentimos como resultado a sociedade da performance, e um consumo de massa exagerado, influenciando neste homem contemporâneo.

Mas com esta inutenticidade irá se manifestar?

Os desejos e a exibição, assumem uma direção, autocentrada, na qual, o horizonte de perspectiva da pessoa se encontra vazio e sem uma relação interpessoal verdadeira. São estas características que vêm marcando a atualidade. Mas, como surgiu este tipo de cultura? A economia americana nos últimos tempos tem sofrido abalos advindos da crise energética, guerras, perda do mercado econômico para os japoneses, entre outros, além da sua hegemonia econômica. Com esta crise pergunta-se: Se a economia americana e o fracasso da política externa não refletem uma decadência moral mais profunda? Ou, uma crise cultural associada a valores tradicionais e a emergência de uma ética de gratificações? As avançadas técnicas de comunicação demonstram que as idéias são concentradas num punhado de organizações gigantesca que centram as informações. A moderna tecnologia tem sobre a cultura um poder unilateral de gestão e comunicação, concentra o controle político-econômico, e cada vez mais o controle cultural, ficando estes controles nas mãos de uma elite cultural. Assim, a tecnologia passa a funcionar como um controle social. Ela rebaixa o gosto do público ou realiza uma lavagem cerebral nos trabalhadores e os mantêm em um estado de falsa consciência.

Os arranjos sociais que dão suporte a um sistema de produção em massa e consumo de massa tendem a desencorajar a iniciativa, como também, a autoconfiança, incentivando a dependência a passividade d a pessoa. O consumismo é apenas a outra faceta da degradação do trabalho, existindo um outro lado que seria a eliminação da habilidade artesanal do processo de produção. Esta eliminação faz com que se produzam em larga escala, havendo uma divisão do trabalho, que está presente em toda sociedade moderna como o trabalho cerebral e o trabalho manual. Ficando o trabalho dividido em planejamento e execução, sendo o gerenciamento responsável pelo controle de tecnologia de produção deixando no trabalhador a tarefa de executar.

Depois de ter organizado a produção em massa era necessário incentivar as pessoas a se tornarem consumidoras.

Mas quais os efeitos psicológicos desse consumismo? Percebo que se deve fazer uma reflexão mais aprofundada a respeito dessa cultura de massa, o exercício repetitivo da auto vigilância, da submissão do julgamento dos especialistas, da descrença de sua própria capacidade de tomar decisões que possam ser inteligentes, como produtores ou consumidores falseia a percepção das pessoas em relação ao mundo e a ela mesma aparecendo esta cultura contribuindo para uma percepção distorcida do que a pessoa realmente deseja.

Examinando o campo atual deste sujeito da atualidade, percebemos que este atingiu o seu grau máximo de individualismo, nesta condição, a alteridade tende a se apagar, ou ficar em silêncio. O autocentramento se apresenta sob a forma da estetização da existência, sendo importante à exaltação do próprio eu. O cuidado excessivo consigo próprio e transformando em objeto permanente para a admiração do sujeito e dos outros. Neste contexto, a mídia se transforma como instrumento fundamental para que a pessoa se esmere para estar sempre presente de acordo com o que é ditado por este tipo de comunicação. Toda esta assimilação se transforma na cultura do espetáculo, a exibição passa a ter importância central na existência, sendo sua razão de ser. Na cultura do espetáculo o que tem valor é a cultura da performance que se submete às pessoas. Com a necessidade de um autocentramento, o eu se torna uma majestade permanente, iluminado no palco da vida social. Uma outra questão, que percebi, é a necessidade de uma reflexão mais profunda, é sobre a cultura de massa, a qual aparece contribuindo para uma necessidade das realizações dos desejos em grande escala. Esta cultura de massa produz indivíduos normatizados, que são capazes de se articular uns com os outros, por sistemas de hierarquia de valores, de submissão. Tais sistemas de valores são disfarçados, dando mensagens sutis interiorizadas pelas pessoas, dando uma produção de subjetividade não só individual, mas uma subjetividade social, na qual se pode encontrar em todos os níveis de produção de consumo, sendo esta subjetividade inconsciente. Esta grande máquina de produção, favorece o consumo que é a produção capitalista. Onde esta, irá facilitar a cultura de massa, sociedade narcísica, sociedade de consumo, fruto de nossa época.

Estamos vivendo a ética de no mínimo eu, fazendo com que as pessoas se sintam divididas e inseguras, como resultado aparece a Os desejos e a exibição, assumem uma direção, como falei anteriormente, autocentrada, na qual, o horizonte de perspectiva da pessoa se encontra vazio e sem uma relação interpessoal verdadeira. São estas características que vêm marcando a atualidade.

O descuidado este, fonte de uma desesperança na continuidade de homem, o oposto do descuidado é exatamente o cuidado, que é uma atitude de ocupação, preocupação e envolvimento afetivo. Cuidando de si e cuidando do outro, surgirá o sentimento de esperança e com ela a mudança se fazendo presente. E na clínica, como aparecem essas mudanças? Podemos observar, uma demanda enorme de pessoas, que estam buscando terapias alternativas, ou ainda a religião, para encontrar uma harmonia. Percebo ao mesmo tempo em que as novas descobertas com relação à cura interior, a ênfase dada à fé, como propulsora de remoção d angústias existenciais, estão tendo uma ampla divulgação. Parece que estamos buscando uma alternativa, uma morada, para os nossos dias serem mais seguros. Neste contexto, percebo que estam aparecendo no consultório pessoas em busca de amparo e descuidado, e que fazem o seu acompanhamento em um tempo cada vez menor. Vislumbro portanto intensificar o trabalho de aconselhamento psicológico e psicoterapia de grupo a fim d atender esta demanda, são estas questões que partilho para se pensar a atuação do psicólogo clínico, diante de uma perspectiva de cuidado.

3.0 – CONSIDERAÇÕES FINAIS

É necessário reconhecer que na atualidade social não nos oferece possibilidades de abrir as experiências, para a respeito da diferença. Vivemos prestes a ideais particulares autocentrada e a um gozo solitário. Esta violência tem características de uma sociedade de espetáculo, justamente porque, é a pretensão de ser melhor que o outro, onde este, delineia caminhos de uma busca insatisfeita.

A intolerância é uma característica básica deste tipo de sociedade, para que possamos mudar esta cultura, é necessário um trabalho efetivo de reconhecimento e respeito à diferença. Cuidar de si e cuidar passa a ser considerado como sendo uma perspectiva de esperança e de mudança.

A necessidade de aprender e mudar para que possa aparecer novos padrões de comportamentos, é ponto central, na possibilidade de emergir um novo repensar na clínica, como sendo a morada segura do nosso tempo.

A partir deste momento, que entrei em contato com todo este conhecimento, sinto que tudo se transforma em aprendizagem, questões por exemplo a serem repensadas. Tudo é novo, estou na condição de errância, e sinto que a chegada não existe mais vou…

4.0-REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BIRMAM, Joel: Entre o cuidado e Saber de si, sobre Foucalt e a Psicanálise. Rio de Janeiro, 2ªedição, Editora: Relume Dumará,2001.

BIRMA , Joel: Mal Estar na Atualidade, A Psicanálise e as novas Formas de Subjetivação, Rio de Janeiro, editora Civilização brasileira, 1993.

BOFF Leonardo: Saber Cuidar, ética do humano, compaixão pela terra. Rio de

Janeiro, 7ª Edição, Editora: Vozes. 1999

FIGUEIREDO Luís C. M.: Matrizes do Pensamento Psicológico. Petrópolis:

Editora Vozes,2000.

FIGUEIREDO Lúis C.M.: Revisitando as Psicologias. São Paulo: Editora Vozes, 1996.

FIGUEIREDO Luís C. M.: Sob o Signo da Subjetividade; in cadernos de

Subjetividade. PUC-SP.

LASCH Chirstopher: O mínimo eu, sobrevivência Psíquica em tempos difíceis

São Paulo. 3ª edição, Editora brasiliense, 1996.

MACEDO Rosa M.(org.): Psicologia e Instituição, Novas Formas de Atendimento. São Paulo, Cortez editora, 1986.

SERRES Michel: Filosofia Mestiça. Novas Fronteiras. Rio de Janeiro, 1993.

VATTIMO, Giammi: Introdução a Heidegger, editora 70 edições Brasil LTDA,

Rio de Janeiro, 1987.

Apresentado no XI ENCONTRO LATINO-AMERICANO DA ACP – Socorro – Brasil – Out/2002